24/03/2017 ( Caderno:
Matérias )
Surgimento de colnias com indivduos mais robustos
e com maior porte do que as operriascoincidiu
com o aparecimento de espcies de
abelhas ladras, aponta estudo
Assim como as formigas e os cupins, diversas espcies de abelhas sem ferro no Brasil possuem guardas ou soldados especializados para defender suas colnias de eventuais ataques de inimigos naturais.
O surgimento dessas abelhas guardis que so mais robustas, tm maior porte e, em alguns casos, apresentam colorao diferente das abelhas operrias mais comuns comeou nos ltimos 25 milhes de anos e coincidiu com o aparecimento de abelhas ladras, que representam uma grande ameaa para muitas espcies de abelhas sem ferro.
As descobertas foram feitas por um grupo de pesquisadores da Universidade de So Paulo (USP), campus de Ribeiro Preto, em colaborao com colegas da Embrapa Amaznia Oriental, em Belm (PA), e da Johannes Gutenberg University Mainz, da Alemanha.
Resultado de dois projetos apoiados pela FAPESP oprimeirocoordenado por Eduardo Andrade de Almeida e osegundopor Fbio Santos do Nascimento, ambos professores do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras da USP de Ribeiro Preto , o estudo foi publicado na revistaNature Communications.
As abelhas guardas tambm apresentam um comportamento diferente das operrias, disse Almeida Agncia FAPESP.
Elas no saem do ninho para buscar alimento, como as abelhas forrageadoras, voam prximas entrada da colnia e so as primeiras a se engajar em uma luta caso venha a ocorrer uma invaso por abelhas parasitas, afirmou.
Um estudo anterior, publicado em 2012, j havia apontado que as colnias de uma espcie de abelha sem ferro a jata (Tetragonisca angustula) so defendidas por um grupo de abelhas guardas que so, aproximadamente, 30% maiores e tm forma diferente de suas companheiras de ninho. E que o tamanho do corpo maior dessas abelhas guardas em comparao com as operrias est diretamente ligado capacidade de combate.
Com base nessa constatao, os pesquisadores decidiram avaliar se a diferenciao das abelhas operrias relacionada com as tarefas que desempenham na colnia est difundida entre outras espcies de abelhas sem ferro que representam o maior grupo de abelhas sociais, com mais de 500 espcies descritas, das quais mais de 300 so encontradas no Brasil.
Para isso, eles compararam caractersticas morfolgicas, como o tamanho, de abelhas guardas e forrageiras de 28 espcies de abelhas sem ferro mais comuns no Brasil, e ecologicamente variadas com diferentes tipos dehabitat, hbitos de nidificao, mtodos de forrageamento e tamanhos de colnia, que podem variar de algumas centenas a dezenas de milhares de operrias.
As anlises indicaram que em 10 das 28 espcies analisadas as abelhas guardas foram significativamente maiores do que as forrageiras. As espcies com abelhas guardas maiores apresentaram uma variao entre 10% e 30% no tamanho em comparao com as abelhas operrias.
As trs espcies com maior grau de diferenciao de tamanho foram as jatasTetragonisca angustula eTetragonisca fiebrigi e a moa-branca (Frieseomelitta longipes).
As abelhas guardas de vrias espcies do gnero de abelhas sem ferroFrieseomelitta no apenas so maiores, como tambm possuem uma colorao mais escura do que as operrias, constataram os pesquisadores.
Observamos que a diferena entre abelhas operrias e guardas muito mais comum entre espcies de abelhas sem ferro do que se imaginava e que a evoluo das abelhas guardas com tamanho corporal maior parece estar relacionada ao risco de ataque por abelhas parasitas, disse Almeida.
Isso muda algumas interpretaes de como teria sido a evoluo de comportamentos sociais de espcies de abelhas sem ferro e as relaes entre elas dentro dos ninhos, por exemplo, apontou.
Presso evolutiva
A fim de identificar quando se iniciou a diferenciao das abelhas e quais fatores contriburam para desencadear esse processo, os pesquisadores fizeram testes baseados em anlises filogenticas (da histria evolutiva) das 28 espcies de abelhas sem ferro includas no estudo.
Os resultados das anlises indicaram que o ancestral comum dessas espcies de abelhas sem ferro tinha operrias com tamanho similar e que o aumento do tamanho das guardas teria evoludo pelo menos cinco vezes de forma independente nos ltimos 20 a 25 milhes de anos.
O perodo considerado recente em relao idade de diversificao das abelhas sem ferro como um todo iniciado h 80 milhes de anos e coincide com o surgimento das abelhas do gnero parasitaLestrimelitta conhecidas como abelhas ladras , apontaram os pesquisadores.
O surgimento das espcies desse gnero, que apresentam um comportamento muito especializado de invadir os ninhos de outras abelhas para saque-los, pode ter exercido uma presso evolutiva sobre as espcies alvos dos ataques favorecendo o desenvolvimento de mecanismos de defesa neste caso, as abelhas guardas para se protegerem, estimou Almeida.
Entre as 28 espcies de abelhas sem ferro estudadas, 10 so alvos conhecidos deLestrimelitta, cujos ataques frequentemente destroem as colnias.
As espcies de abelhas sem-ferro alvos das abelhas ladras so quatro vezes mais propensas a ter guarda com maior tamanho em comparao s que no so vtimas frequentes, apontaram os pesquisadores.
medida que essas espcies de abelhas sem ferro alvos das abelhas ladras passam a sofrer menos ataques ou que conseguem intercept-los, elas passam a ter a chance de aumentar sua descendncia, o que representa uma vantagem evolutiva, avaliou Almeida.
O artigoRepeated evolution of soldier sub-castes suggests parasitism drives social complexity in stingless bees (doi: 10.1038/s41467-016-0012-y), de Christoph Grter e outros, pode ser lido na revistaNature Communications emwww.nature.com/articles/s41467-016-0012-y.