05/03/2020 ( Caderno:
Seção Saúde )

Simulao de cenrios precisos de disseminao da
doena e teste da eficcia de intervenes dependem,
no entanto, de se conhecer nmero de
infectados assintomticos
No arsenal ao qual cientistas recorrem com o intuito de combater epidemias, os modelos matemticos esto entre os itens estratgicos. Mais do que estimar como ser a disseminao da doena, o nmero de infectados e o percentual de mortes e hospitalizaes, essas ferramentas permitem simular inmeros cenrios e, assim, testar a eficcia de intervenes que podem ser adotadas pelas autoridades de sade para reduzir o contgio, como o fechamento de escolas, o cancelamento de eventos pblicos e a restrio de viagens.
Modelos j bem estabelecidos para o estudo da gripe e outras infeces respiratrias podem ser adaptados com relativa facilidade para prever a disseminao do novo coronavrus (SARS-CoV-2), auxiliando governos e gestores de sade no planejamento de aes para conter a transmisso e atender os doentes. Faltam, no entanto, algumas informaes-chave para tornar as estimativas minimamente precisas, como, por exemplo, o percentual de pessoas que se infectam e no manifestam sintomas.
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“Indivduos com febre, tosse e desconforto respiratrio tm maior probabilidade de irem ao hospital e serem testados. Os assintomticos, por outro lado, no vo ao mdico e, mesmo sem saber, podem transmitir o vrus para familiares, amigos e colegas de trabalho. Para descobrir quantas pessoas esto nessa condio seria necessrio testar todo mundo – algo impossvel neste momento, pois preciso poupar recursos para o atendimento de quem est realmente doente”, disse a matemtica Sara Del Valle, especialista em modelagem de doenas infecciosas do Laboratrio Nacional de Los Alamos, nos Estados Unidos.
Na avaliao de Marcelo Gomes, pesquisador do Programa de Computao Cientfica da Fundao Oswaldo Cruz (Fiocruz), alm do percentual de assintomticos tambm crucial determinar a taxa de infectividade desses casos, ou seja, o quanto indivduos sem sintomas so capazes de transmitir o vrus. “Isso pode alterar drasticamente a capacidade de controlar a propagao da Covid-19. Se a transmisso ocorrer majoritariamente a partir de pessoas com sintomas, o cenrio mais favorvel. Porm, em uma situao inversa, seriam necessrias medidas para reduzir o contato entre as pessoas que alcancem toda a populao, como o fechamento de escolas, por exemplo”, disse.
Outro fator importante e que ainda no est claro por quanto tempo pacientes curados permanecem imunes ao vrus. “H relatos de pessoas que tiveram alta e, aps alguns dias, voltaram a manifestar sintomas, foram testadas e tiveram resultado positivo para Covid-19 novamente. Pode ter sido uma recada como tambm pode ser uma nova infeco. Neste segundo caso, a dinmica da epidemia muda completamente, pois a imunidade temporria – se de fato existir – muito curta, o que impede a ocorrncia de um fenmeno epidemiolgico conhecido como imunidade de rebanho, uma espcie de barreira de transmisso formada por indivduos previamente infectados”, disse Gomes.
Del Valle e Gomes participaram, no dia 3 de maro, de uma sesso especial sobre Covid-19 realizada durante o Workshop on Modelling of Infectious Diseases Dynamics, organizado pelo Instituto Sul-Americano para Pesquisa Fundamental (ICTP-SAIFR) – um centro de pesquisa apoiado pela FAPESP e sediado no Instituto de Fsica Terica (IFT) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em So Paulo. A mesa de discusso contou com a pesquisadora Carrie Manore, tambm de Los Alamos.
Durante o evento, a frase “estamos apenas no comeo” foi repetida inmeras vezes pelos especialistas quando se referiam ao nmero de casos confirmados de Covid-19 no mundo.
No Brasil, segundo Gomes, torna-se mais difcil conter a disseminao medida que o vrus invade a Europa e os Estados Unidos, locais com o qual o pas mantm maior intercmbio de turistas e viajantes a trabalho. Invaso nesse caso, ressalta o pesquisador, significa a existncia de transmisso interna da doena e no apenas o registro de casos importados.
Com base em dados de trfego areo, Gomes avalia que So Paulo a cidade com maior risco de apresentar novas infeces no curto prazo, pois onde desembarca a maior parte dos passageiros internacionais. As cidades que mais recebem voos oriundos da capital paulista so, na ordem, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Braslia, Curitiba, Belo Horizonte, Salvador e Recife.
“Ainda cedo para afirmar com preciso qual a taxa de letalidade da Covid-19 e se a doena representa um problema de sade pblica maior do que a gripe sazonal ou as enfermidades causadas pelos coronavrus que j circulavam entre os humanos”, disse Gomes.
Ele arrisca prever, contudo, que caso o surto atual no seja adequadamente controlado, o SARS-CoV-2 pode se tornar um patgeno endmico no pas, que reaparece sazonalmente como o H1N1, um dos causadores da gripe.
“No conseguimos conter o surto de H1N1 em 2009 e, agora, todo ano ele volta com pequenas modificaes”, disse. "Por outro lado, essa experinciatrouxe muitos ensinamentos para os profissionais em sade pblica e a comunidade cientfica internacional. Hoje estamos melhor preparados para lidar com pandmias. No Brasil, o Ministrio da Sade implementou a rede de vigilncia de casos de sndrome respiratria aguda grave [SRAG], que estabeleceu a notificao obrigatria dos casos em territrio nacional. O desenvolvimento do InfoGripe [ferramenta de anlise e monitoramento de casos de SRAG no Brasil e gera alertas semanais] no seria possvel sem a rede de vigilncia estabelecida em 2009."
Monitoramento por mdias sociais
Se por um lado as mdias sociais contribuem para a propagao de notcias falsas sobre os mais variados temas – sade entre eles –, por outro representam uma fonte valiosa de dados para pesquisadores dedicados a rastrear surtos de doenas infecciosas, como o caso de Del Valle. Seu grupo em Los Alamos tem usado plataformas como Twitter, Google e Wikipedia para monitorar malria, dengue, gripe e outras doenas sazonais.
“Durante a temporada de dengue no Brasil, por exemplo, podemos notar um aumento nas buscas por informaes relacionadas doena. medida que os casos comeam a diminuir, tambm caem as buscas on-line e as postagens em rede social. Assim, conseguimos saber quando est ocorrendo um surto na regio”, contou a pesquisadora Agncia FAPESP.
A estratgia, porm, ainda no pode ser usada para a Covid-19. “Todo mundo est fazendo buscas e falando sobre o novo coronavrus neste momento e isso diminui a nossa capacidade de estudar a disseminao por esse mtodo. Podemos, no entanto, usas asmdias sociais para monitorar comportamentos emergentes, como uso de mscaras, cancelamento de viagens e lavagem frequente das mos. So fatores que impactam a expanso da epidemia”, disse.
De acordo com Gomes, justamente porque a populao tende a alterar seus hbitos comportamentais diante de uma ameaa como a Covid-19, prever o nmero de infectados no longo prazo muito difcil, mesmo com modelos robustos.
“A adoo de medidas como evitar aglomeraes e ficar em casa quando tiver sintomas pode ter um impacto significativo nos nmeros”, afirmou.
A importncia de vacinar a populao contra a gripe foi ressaltada por todos os especialistas que participaram do evento. Segundo eles, com menos infeces pelo influenza, torna-se mais fcil identificar os casos de Covid-19 e a sobrecarga no sistema de sade reduzida. No Brasil, o incio da campanha de vacinao foi antecipado 23 dias, e ter incio em 23 de maro. O Instituto Butantan se mobilizou para produzir 75 milhes de dose – 13% a mais que no ano anterior.
A importncia do SUS
Tanto na avaliao de Del Valle quanto de Gomes, a existncia de um sistema pblico e universal de sade coloca o Brasil em uma posio de vantagem no que diz respeito identificao de casos do novo coronavrus – algo essencial para a conteno da epidemia.
“Nos Estados Unidos, muitos cidados no tm nenhum tipo de seguro de sade. O acesso a hospitais e clnicas, portanto, mais limitado e isso deve contribuir para aumentar os casos por l”, afirmou Del Valle.
Gomes ressalta que mesmo os norte-americanos cobertos por seguro podem no ter acesso ao teste molecular capaz de diagnosticar o novo coronavrus. “Recentemente foi divulgado o relato de um paciente que se encaixava nos critrios de caso suspeito. Ele foi encaminhado para o exame laboratorial, mas o plano negou a cobertura. O teste custa cerca de US$ 3 mil [R$ 13,5 mil], algo inacessvel para muitas pessoas”, disse.
No Brasil, contou Gomes, todos os hospitais pblicos esto aptos a identificar casos suspeitos, que so encaminhados para os Laboratrios Centrais de Sade Pblica (Lacens) e, posteriormente, para os laboratrios de referncia para a contraprova, como o Instituto Adolfo Lutz, em So Paulo.
“Esses servios de vigilncia epidemiolgica representam um lado ainda pouco conhecido do SUS que nos permite lidar melhor com diversos problemas de sade pblica. Os laboratrios tm qualidade e capacidade para lidar com o coronavrus, mas o tamanho reduzido das equipes e eventuais faltas de insumos podem ser um gargalo. medida que se reduz o financiamento do SUS, tudo isso impactado”, afirmou Gomes.
Um editorial sobre o papel do sistema de vigilncia nacional no enfrentamento do novo coronavrus foi publicado nesta quarta-feira (04/03) no peridico Cadernos de Sade Pblica, da Escola Nacional de Sade Pblica Sergio Arouca, Fundao Oswaldo Cruz. Gomes um dos autores.