
Existe um lugar no mapa que parece ter sido desenhado só para testar os limites do ser humano e, estranhamente, também para nos lembrar da nossa pequenez diante da natureza. Esse lugar é o remoto SVALBARD, um arquipélago norueguês, nos confins do CÃrculo Polar Ãrtico, encravado entre a Noruega e o Polo Norte, considerado o topo do mundo.

Quando cheguei, senti como se estivesse entrando numa dimensão paralela: menos gente, menos barulho, menos pressa, e muito gelo. Esse é o ponto mais ao norte em que se pode voar com uma companhia aérea nacional.

Visitar Svalbard foi um sonho antigo realizado. Viajei para lá no verão ártico, perÃodo em que as temperaturas são menos severas e as paisagens se revelam sob a luz contÃnua do sol da meia-noite.


Assim que desembarquei no pequeno aeroporto de Svalbard, avistei as montanhas nevadas delineando o horizonte, paisagem que nos faz lembrar que o verão, por aqui, é quase simbólico, frio o suficiente para nos envolver em casacos pesados, numa sensação constante de estar no limite entre as duas únicas estações.

Aqui, devido à alta latitude, 78° 13′ N, 15° 39′ L quase metade do ano é noite permanente, seguida por igual número de meses com o sol da meia-noite à vista.

Durante o “verão†o dia simplesmente não acaba, são 24 horas de luz, é o chamado “sol da meia noiteâ€, dura de 20 de Abril a 23 de Agosto. No inverno tudo muda, o sol desaparece, e começam as 24 horas de escuridão, é a chamada “noite polar†que vai de 26 de Outubro a 15 de Fevereiro.
Território da NoruegaÂ

O arquipélago de Svalbard é território norueguês desde 1925
Sptisbergen é a maior ilha do arquipélago de Svalbard, onde está localizada a capital Longyerbyen.


Longyerbyen é a capital administrativa e econômica de Svalbard. Ela fica na latitude 78 Graus Norte, sendo a cidade mais ao norte da Terra, tão perto do Polo quanto uma cidade “civilizada†consegue chegar. É um daqueles pontos no mapa em que a linha entre vida humana e vida selvagem fica perigosamente tênue.
Longyerbyen: a cidade que abriga mais ursos do que habitantes.

Foto: Hinrich Baseman

Normanns Kunstforlag
Isso mesmo, ali há mais ursos polares do que pessoas. Não necessariamente porque eles circulam dentro da cidade (pelo menos, espera-se que não!) mas porque todo o arquipélago de Svalbard é território deles: uma vastidão de gelo, montanhas, e fiordes, onde cerca de 3.000 ursos polares vivem e caçam. Já, Longyerbyen abriga algo em torno de 2.400 habitantes, o que faz dessa magnÃfica espécie de quatro de quatro patas, a verdadeira “população dominante†do local.

Alerta para a presença de ursos polares
O mais curioso, é que esse desequilÃbrio é sentido no cotidiano. Em Longyerbyen, o aviso não é para cuidar da bolsa, como em muitos paÃses da Europa, é para não sair da área urbana sem um guia armado, porque ali, quem dita as regras é o urso.

É exatamente isso que torna Longyerbyen tão fascinante: uma cidade urbana ancorada num mundo que pertence, primordialmente, aos ursos.

Se engana quem pensa que o arquipélago é só “terra de urso polarâ€. Longyerbyen está rodeada de criaturas que parecem ter saÃdo de um documentário da BBC.

Raposa Ãrtica

Crédito Oceanwide Expedition

Além dos ursos polares existem as raposas árticas, (branquinhas no inverno, acinzentadas no verão); renas, que estão por toda parte; roedores; aves do ártico; gaivotas, fulmares boreais (uma espécie de albatroz do Hemisfério Norte); e outros tantos, num glossário vivo de biologia.
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Kah Wai Lin Photography - www.kahwailin.com
E se a vida em terra já impressiona, o mar é um espetáculo à parte. Ali, está uma das maiores concentrações de Morsas do planeta. As morsas, uma espécie de elefante marinho, são famosas pelos longos “caninosâ€, corpo avantajado e comportamento coletivo.

Dividindo o mesmo oceano, estão os leões-marinhos, focas, e a baleia azul, o maior animal do mundo, que parecem tão confortáveis no mar gelado, quanto nós, no banho quente.

Centrinho de Longyerbyen - Svalbard
Caminhar por Longyearbyen é ter a sensação de estar numa cidade que alguém esqueceu de avisar que o planeta acaba logo ali. Cafés aconchegantes, um moderno supermercado, lojas de souvenir, um pavilhão desportivo, três pubs, três hotéis, uma igreja, cinema, estabelecimento de diversão noturna, agências de turismo, e bicicletas de neve, “snowmobile†(veÃculo de neve) estacionadas junto aos enormes carros 4x4.

É comum cruzar com renas atravessando as avenidas, como se lembrassem aos visitantes que somos nós, os intrusos, em seu habitat. O local abriga mais de 10.000 renas. Tudo isso contrasta com o vento polar, que parece atravessar todas as camadas de agasalho, criando uma atmosfera ao mesmo tempo acolhedora e selvagem, impossÃvel de encontrar em qualquer outro lugar do mundo.
O QUE VER EM SVALBARD
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• Passeio de barco pelos Fiordes e geleiras – As Companhias de turismo oferecem várias opções de passeios de barco, e fornecem toda vestimenta adequada de proteção contra o frio (roupas, luvas, botas, óculos).

Foto: Ian Gjertz
• Tour de barco para observar a colônia de Morsas do Ãrtico – As morsas são os gigantes do gelo, de corpo imenso, e enormes presas de marfim.


• Safáris árticos guiados – para observação da vida animal, com chance de avistamento de ursos polares e outros animais selvagens.

Uma das agências que oferecem tours guiados

Cidade fantasme mineradora da época soviética
• Pyramiden: A cidade fantasma soviética – É um passeio surreal para uma antiga cidade mineira abandonada.

Antigo alojamento dos mineradores -hoje  adaptados como hoteis

Recepção

Interior dos quartso - simples, mas aconchegantes
• Alojamento dos antigos mineradores – Muitos viraram hotéis, uma opção simples e mais barata para se hospedar em Longyerbyen.
• Sol da meia-noite – De maio a agosto o sol não se põe. A sensação de andar de dia à s três da manhã é inesquecÃvel.
• Auroras Boreais – De outubro a março, é possÃvel ver, do quarto do hotel, as cores da aurora dançando no céu.

• Trilhas e caminhadas – Sempre guiadas pelas montanhas como Plateau Moutain, Hiorthfjellet e outras paisagens lunares

Fazenda de criação de cães Huskies para trenós
• Fazendas de Cães para Trenós – Há Inúmeras fazendas de criação de huskies e malamutes. Esses animados cães são verdadeiras locomotivas que puxam os “sleds†pelo gelo no inverno ártico.

• Centrinho, o coração da cidade – Caminhar pelo centrinho de Longyerbyen é se surpreender com a vida cotidiana mais ao norte da Terra.

Igrejinha Luterana
• Igrejinha Luterana – É a construção mais antiga da cidade, erguida em 1958 para atender a comunidade de mineiros. Â
Curiosidades que só Svalbard explica.
CURIOSIDADES de SVALBARD
• Proibido morrer e ser enterrado em Svalbard – Parece sinistro, mas não é permitido enterrar ninguém lá: O solo é o chamado “permafrost†ou seja, permanentemente congelado, o que impede o sepultamento, uma vez que os corpos não se decompõem, preservando até vÃrus antigos, como o da gripe espanhola. Os doentes graves são enviados ao continente.
• É proibido nascer em Svalbard – Não há infraestrutura hospitalar para partos. As grávidas são obrigadas a ir para Noruega continental.

Correio mais ao norte da Terra

• Cartas do fim do mundo – Longyerbyem abriga o correio mais ao norte do mundo, onde até o simples ato de enviar um cartão postal, vira uma experiência turÃstica.

Silo Global de Sementes


• Fortaleza da Vida Vegetal – Svalbard abriga o “Silo Global de Sementes†(Global Seed Vaut), uma espécie de cofre de sementes, construÃdo cerca de 130 metros dentro de uma montanha gelada, onde estão armazenadas mais de um milhão de amostras de sementes e plantas para alimentação humana, a uma temperatura perene a -18º C. Caso haja uma catástrofe, a humanidade poderá recomeçar a agricultura.
• Proibido ter gatos – Sim, em Svalbard, ter gatos é ilegal, uma vez que esses charmosos felinos são predadores das aves e outras espécies locais do Ãrtico.
• Ar mais puro do mundo – Svalbard tem uma das atmosferas mais puras do mundo.

• O reino dos glaciares – Mais de 2.000 glaciares cobrem cerca de 60% de Svalbard, sendo que esse montante vem diminuindo devido ao aquecimento global.
• Um fim para as minas de Carvão – Svalbard já foi terra de minas e mineradores de carvão, hoje, quase todas fecharam. O Ãrtico trocou o carvão pelo turismo e pela ciência. Os antigos alojamentos dos mineiros foram transformados em hotéis simples, que são mais acessÃveis.
• O Ãrtico multicultural –  Muitos trabalhadores de hotéis, restaurantes e mercados vêm da Ãsia, especialmente Filipinas e Tailândia.
Como chegar em Svalbard saindo da América do Sul
Não existem voos diretos. O caminho mais prático é voar até Oslo, (via Europa: Paris, Londres, Amsterdã ou Frankfurt), e, de lá, pegar um voo para Longyerbyen (LYR) o único aeroporto de Svalbard.
Melhor é poca para ir

Aurora Boreal que pode ser vista durante o inverno de Outubro a Março
De maio a setembro: temperaturas menos extremas, muita luz e mais atividades ao ar livre. Para ver a aurora boreal, ir de outubro a março, mas prepare-se para o frio da “noite polarâ€.
Se existe um lugar, capaz de nos lembrar de que o mundo ainda guarda maravilhas intactas, esse lugar é Svlabard. Entre geleiras, fiordes, vida animal, e uma paisagem em constante transformação, a gente entende que o planeta consegue nos surpreender com lugares capazes de nos tirar o folego.
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