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    Uma história prá lá de Bagdá
    Postado em 01/09/2006

    Zico, meu irmão no Iraque

    O time do flamengo foi ao Iraque para disputar um amistoso com a seleção Iraquiana.Quando cheguei para assistir ao jogo, os portões já haviam sido fechados. Veja como driblei a ostensiva guarda Republicana de Saddan Hussein, valendo-me de artifícios nada recomendáveis para ingressar no Estádio.

    Naquela radiante manhã, Lídia, a secretária iraquiana da Cia brasileira de Armamentos no Iraque, chegou eufórica com os ingressos para o jogo que ocorreria no Estádio Internacional. Para mim, não era um jogo de futebol qualquer, era a seleção do meu querido país (do qual eu já morria de saudade), contra a seleção do Iraque.

    O jogo teria início às 15 horas. Às 14 estávamos prontas. Meu marido estava na Jordânia, a negócio, por isso, Lídia me acompanharia. Às 14:30hs, Noori, nosso motorista, ligou avisando que iria atrasar meia hora porque estava no mecânico com o carro quebrado.

    Mais tarde, quando chegamos nas imediações do Estádio “Al Shahab Al Douali”, vimos uma multidão. Uma verdadeira massa humana contornava os portões, que já haviam sido fechados. Fiquei aterrorizada com a possibilidade de não conseguir entrar para assistir aquele jogo, afinal, morando há mais de dois anos no Iraque, meu patriotismo aflorava na pele.

    _ Lídia, o que está havendo? Perguntei já sabendo da resposta.

    _Não podemos entrar, os portões já foram fechados respondeu, desolada, com o seu inglês fluente.

    _Lídia, eu vou entrar neste jogo custe o que custar. Enquanto dizia isso, fui acotovelando a multidão, abrindo uma fenda humana, para alcançar o portão de acesso.

    Nisso, soldados da guarda Republicana, armados até os dentes, com metralhadoras Kalashnikov e cinturões de bala, começaram a dar coronhadas nos pés dos que tentavam se aproximar do portão principal.

    _Márcia, não há nenhuma chance. É impossível entrar, disse-me Lídia, com a tez mais pálida do que nunca.

    _ Lídia, a palavra “impossível” não existe no meu dicionário, eu vou tentar ultrapassar a grade do outro lado, eu disse a ela, sem perder a esperança.

    Contornando o grande cercado, nos dirigimos para o lado de trás do Estádio. Foi quando, ao me aproximar da grade de proteção, avistei inúmeros soldados em sentinela, em formação de semicírculo, cada um deles segurando uma metralhadora com uma das mãos e um pastor alemão com a outra. Um dos cachorros percebeu a minha inoportuna presença e desatou a rosnar deixando a saliva escorrer-lhe entre os dentes à mostra. Lídia, que já estava mais nervosa do que eu, implorou para que voltássemos r
    apidamente, pensei num último artifício, aliás, I-L-E-G-A-L, cuja penalidade eu bem sabia, mas era o único de que dispunha. E disparei:

    _Lídia, por favor, vá até aquela guarita e diga àquele soldado QUE EU SOU A IRMÃ DO ZI CO e quero entrar neste Estádio, agora mesmo!(Na verdade, eu nem sabia se ele tinha uma irmã). Lídia estava quase esvaecendo de medo. (Eu precisava dela porque eu não falava árabe). Ela só aceitou cumprir o meu pedido depois de eu haver prometido que seria a última tentativa. Lídia dirigiu-se à guarita, que era um verdadeiro “bunker” de onde o soldado, fortemente armado, dominava o panorama. Esperando de longe, pude divisar as mímicas do diálogo. Ela voltou rapidamente, e falou ofegante:

    _Márcia, ele disse que o problema é que se ele abrir o portão para entrarmos, a multidão ficará incontrolável e todos invadirão o estádio.

     _Então Lídia, por favor, diga a ele que eu estou indo embora, mas vou contar para o meu irmão Zico que não me deixaram entrar e que ele não vai gostar de saber que eu fiquei do lado de fora do Estádio.

    Assim que Lida afastou-se para dar o último recado, lembrei-me das lições do ilustre jurista meu mestre de Direito Penal no Mackenzie, Prof. Edgard Magalhães Noronha, abordando o artigo 307 do Código Penal, que reza: “Atribuir-se ou atribuir a terceiro falsa identidade para obter vantagem, em proveito próprio ou alheio....Pena: detenção de três meses a um ano”. Se eu estivesse no Brasil, ficaria sujeita à pena daquele artigo, entretanto, esta transgressão no Iraque poderia custar-me a vida.Senti um calafrio subindo pelas vértebras.
     
    Lídia voltou com um sorriso de Monalisa nos lábios e disparou:

    _ Márcia, você conseguiu! Ele vai anunciar no auto falante que serão abertos os portões “norte” e assim que a multidão se deslocar para lá, ele nos abrirá este portão frontal. Meus olhos marejaram de lágrimas, não sei se de euforia ou por temor de ir até às últimas conseqüências para ver o time de Zico em campo. Acho que não era apenas o jogo que eu queria ver, mas o pedacinho do meu Brasil que ele significava naquele momento.

    De fato, uma voz rouca, falando em árabe, soou dos alto-falantes espalhados por todo o Estádio. Nisso, a massa humana que bloqueava o portão frontal deslocou-se para o portão norte. Levantei os olhos e vi o impossível acontecer. Fiquei tão assombrada quanto Moisés deve ter ficado ao ver o Mar Vermelho abrir-se à sua frente. Um soldado resgatou-me da abstração gritando em árabe: yala, yala ohty Zico!(vamos, vamos, irmã do Zico), enquanto  outros dois destrancavam um cadeado duas vezes maior do que a minha mão, retirando a corrente quase tão grossa quanto a da âncora de um cargueiro. Um outro soldado, puxando aquele pastor alemão, fez sinal para que o acompanhássemos. Na verdade me senti adentrando um campo de concentração sob a mira da SS. Comecei a tremer e me dei conta de que havia ido longe demais.

    Os gritos eufóricos da torcida na arquibancada soavam cada vez mais próximos. Atravessamos o pátio oval que contorna o campo, até alcançar um outro paredão, isolado por portões com grades de ferro, semelhantes aos de uma prisão de segurança máxima. O soldado tirou do cinturão um molho de chaves e abriu outro enorme cadeado que me fez lembrar a fechadura do castelo do gigante, na história do “Feijão Mágico”. Entramos na antecâmara da arquibancada. Um militar de patente superior colocou sua metralhadora sobre a mesa e esbravejou uma frase em árabe. Lídia traduziu com a voz trêmula:

    _Marcia ele quer que você esvazie sua bolsa sobre a mesa.

    Imaginando que ele fosse pedir meus documentos para certificar-se de que eu era a irmã do Zico, tive uma descarga de adrenalina que fez adormecer as minhas mãos e desgovernar as pernas.Tudo começou a se passar como um filme em câmara lenta.

    Imaginei-me sendo levada algemada para prisão e de lá, para a forca. Sim, claro, era isso que eu merecia: a forca!
    Pensei nas minhas filhas, uma de seis e outra de dois anos. Pensei em meu marido, que havia viajado para a Jordânia e, provavelmente, achava que a essas alturas eu deveria estar nadando na refrescante piscina Olímpica do Hotel Babilon de Bagdá ou, ainda, saboreando um chá com a embaixatriz Stela na residência oficial da Embaixada do Brasil.

    Em vez disso, lá estava eu metida numa grande encrenca! Já não achava mais virtude, mas sim defeito, a minha obstinação para conseguir as coisas que desejo. Abri o fecho e emborquei a bolsa sobre a mesa. Batom, blush, 20 Dinares, escova de cabelo, rolaram pela mesa desnivelada. Sem dar atenção ao documento de identificação ele fez sinal para que eu guardasse tudo. Foi quando entendi que ele só queria certificar-se de que eu não portava arma.
    Após a revista, liberou nossa entrada. O soldado que nos acompanhava foi nos guiando por corredores num emaranhado de labirintos, até que, finalmente, chegamos às arquibancadas. 

    Uma parede humana impedia que enxergássemos o campo. Acotovelei até chegar na fila da frente. Aleluia, por ALÁ! Eu estava vendo o time em campo. Meu coração foi a mil! Mas a alegria durou pouco. Em alguns segundo dezenas de mãos começaram a nos bolinar. Claro, só havia homens (muçulmanos) na arquibancada. Recuamos até o corredor e Lídia explicou o ocorrido ao soldado. Ele, então, pediu que o seguíssemos.

    E lá fomos os três subindo e descendo, contornando e serpenteando os degraus da arquibancada até o ponto mais alto, onde ele se deteve. Era a tribuna de honra do Estádio, ostensivamente protegida pela guarda nacional republicana. O soldado indicou uma senhora com o dedo e disse:

    _
    Lá está ela, não é a sua mãe?

    Sem acreditar, divisei a mãe de Zico (ninguém poderia duvidar, pois era a cara dele). Não tive outra alternativa, sentei-me ao lado dela cumprimentando-a com uma indisfarçável intimidade. Para ela, tratava-se apenas de mais uma fã de seu famoso filho. Olhei para trás e vi o soldado que se afastava com ar de dever cumprido.

    Na última fileira da Tribuna, contornado por truculentos seguranças, o filho Uday do Presidente Saddan Hussein assistia ao jogo devorando seu legítimo Havana. Foi a primeira e última vez que assistiria a um jogo do MEU IRMÃO ZICO AO LADO DE “NOSS MÃE”.

    Minha intenção era oferecer minhas escusas ao grande ídolo brasileiro, o meu “irmão” por um dia, na recepção oferecida ao time, pela embaixada brasileira no Iraque, mas não me foi possível comparecer. Portanto, meu caro irmão, fica aqui gravado o meu pedido de desculpas por haver me passado por sua irmã naquele dia.

    Esta é uma história real, pra lá de Bagdá!

    PARA LER A RESPOSTA DO ZICO A ESTA CARTA, CLIQUE AQUI



  • Márcia Pavarini
    Ao longo de vários anos Márcia Pavarini percorreu o mundo viajando por todos os continentes e até aos Pólos. Foi anotando suas aventuras em diários que, hoje, perfazem aproximadamente 5.000 páginas. Ela esteve, até agora, em 240 países, de acordo com o critério de contagem da Travelers Century Club TCC. Na Coluna “Diário das 1001 Viagens” Márcia Pavarini divide com os internautas, do Portal, as experiências vivenciadas durante suas andanças.


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