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Agenda )
Em risco de extinção, peixe-anual-de-Iguape sofre
com ocupação humana sobre a restinga

O peixe-anual-de-Iguape é encontrado apenas na região do
litoral sul do estado de São Paulo e
está em risco de extinção
Pesquisadores da Unesp registraram pela primeira vez em cerca de dez anos a presença do peixe-anual-de-Iguape (Campellolebias dorsimaculatus). A espécie, que é encontrada apenas na região do litoral sul do estado de São Paulo, é tida como em risco de extinção e indicadora de boa qualidade ambiental. Os últimos registros da ocorrência da espécie na região datam de 2006.
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Espécie endêmica do bioma da Mata Atlântica, o Campellolebias dorsimaculatus mede até 2,8 cm de comprimento, sendo bastante valorizada por aquaristas. Professor da Unesp no câmpus de Registro, Domingos Garrone explica que o fato de a espécie estar criticamente ameaçada de extinção, entretanto, está mais relacionada com a ocupação humana em áreas alagáveis que servem como habitat do peixe.
“As restingas têm sido intensamente ocupadas pelo homem com atividades agrícolas e loteamentos urbanos, como ocorre na região dos municípios de Ilha Comprida e Iguape. Conciliar esses usos da terra é fundamental para a conservação da espécie”, aponta.

Ambientes alagados temporários que ficam no interior da restinga,
com águas bem ácidas, cor de chá,
onde vivem os peixes da
família dos Rivulídeos
(Crédito: Domingos Garrone)
O Campellolebias dorsimaculatus pertence à família dos Rivulídeos, e têm por característica serem peixes anuais que vivem em poças de água temporárias. Historicamente, a presença desses animais em pequenas porções isoladas de água sempre despertou curiosidade sobre a forma com que eles surgem nessas porções isoladas de água. O mistério rendeu à espécie outro nome popular: o “peixe-das-nuvens”.
Hoje sabe-se que esses peixes depositam seus ovos no lodo sob folhas e restos vegetais, onde permanecem até eclodirem no próximo período de chuvas. “São peixes que habitam ambientes de restinga e tem bastante interação com insetos e a dinâmica da serrapilheira, essa camada de substrato que fica sobre a terra e abaixo do dossel das árvores”, explica o professor do câmpus de Registro.

O pesquisador Osvaldo Oyakawa (MZUSP) e bolsista de iniciação científica
durante atividade de campo. A observação dos mapas ajuda na localização
das áreas de ocorrência da espécie que foi redescoberta
e de outras espécies da família dos Rivulídeos
(Crédito: Domingos Garrone)
Proteção
Por conta do risco de extinção, desde 2013 o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) desenvolve um Plano de Ação Nacional para a conservação dos peixes rivulideos ameaçados de extinção, cujo objetivo é estabelecer mecanismos de proteção aos rivulídeos e anular a perda de seu hábitat.
Alinhado à iniciativa do ICMBio, desde 2019 o professor Domingos coordena o projeto “Conservação de duas espécies de peixes anuais criticamente ameaçadas de extinção no Vale do Ribeira, Estado de São Paulo” da ONG Mater Natura - Instituto de Estudos Ambientais, com financiamento da Fundação Boticário. O projeto tem ainda a colaboração do professor Marcos Bornschein, vinculado ao Câmpus Litoral Paulista da Unesp, em São Vicente, e de Osvaldo Takeshi Oyakawa, vinculado ao Museu de Zoologia da USP, além de estudantes das instituições.
No projeto, o grupo de pesquisadores mapeia a ocorrência de espécies da família Rivulídeos por meio de registros históricos e trabalhos de campo, no intuito de caracterizar seus habitats e avaliar o seu atual estado de conservação.
A ideia agora é aproveitar a estrutura do curso de Engenharia de Pesca da universidade para montar um plantel e conseguir criar o peixe-anual-de-Iguape em cativeiro. “A ocorrência dessa espécie está restrita a uma área inferior a 10 km2. É muito pouco. A estruturação de um plantel permite ter uma viabilidade genética para reintroduzir a espécie caso ela seja extinta”, afirma Domingos.